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Quinta-feira, Julho 08, 2004
Vento ventania, me leve sem destino!

Na verdade, na verdade, mesmo, a confusão entre o Chorão, pugilista, digo, vocalista do Charlie Brown Jr., e o Marcelo Camelo, dos Los barbudos, digo, Hermanos, começou porque o Camelo meteu a corcova, digo, o nariz, onde não era chamado.
Para quem não sabe ainda, se é que existe alguém que não saiba dessa estória, o Marcelo Camelo criticou, numa entrevista, que o Charlie Brown, sempre com uma postura meio contrária ao ¿sistema¿, tenha feito propaganda da Coca-Cola. Não deu outra. No aeroporto de Fortaleza, depois de muitas trocas de amabilidades no avião em que estavam juntos vindo para o Piauí Pop, Chorão usou a cabeça (aliás, bem grandinha) do jeito que mais sabe fazer: desferindo uma cabeçada no nariz do barbudo Hermano. Sendo, evidentemente, merecidamente socado e colocado de volta em seu devido lugar com a boca inchada.
Chorão fez jus ao apelido. Como um bebê chorão, ficou nervosinho porque foi criticado e saiu dando cabeçada por aí. Por outro lado, Marcelo Camelo não tem nada a ver com que comercial o Charlie Brown faz ou deixa de fazer, já que a banda dele é outra. Pode até ter a opinião dele, pode até dizer ¿aonde está a liberdade de expressão¿ mas, na verdade, o que ele tem com isso, mesmo?
Isso me fez refletir sobre duas coisas: uma ¿ até que ponto somos capazes de receber uma crítica? Até que ponto conseguimos ouvir alguém falar algo que nos desagrade, sem ter vontade de sair dando cabeçadas, mesmo que não literais, nas pessoas que nos criticam por alguma atitude ou pensamento? Poucas, pouquíssimas pessoas são capazes, realmente, de ouvir uma crítica com a cabeça num lugar mais adequado que o nariz alheio. Por outro lado: quem, de nós, consegue não criticar o comportamentos dos outros? Quem consegue ver, ouvir ou saber de idéias e atitudes de alguém sem ter aquela vontade irresistível de dar um pitaco, de dar um palpite, de cravar dentes de cobra peçonhenta no pescoço alheio, especialmente diante de um microfone da imprensa? Porque as duas atitudes são inerentes ao ser humano. Criticar e se defender de críticas. Achar que o outro está errado e defender seu ponto de vista.
Marcelo Camelo não é vítima. Chorão não é agressor. Camelo não é agressor. Chorão não é vítima. Ambos são, tão e tão somente, gente. Ambos são vítimas e agressores. Ambos são humanos, apesar de duas personalides visivelmente distintas. Chorão é o eterno falso-adolescente-rebelde-sem-causa, que usa o sistema para sobreviver enquanto canta a decadência do mesmo sistema. Camelo é um homem sensível, poeta, intelectualizado, delicado, que sabe a força da palavra na letra de uma música ou reproduzida nas páginas de uma revista. Chorão usa a cabeça para revidar uma crítica. Camelo usa a cabeça para criticar algo que não é da conta dele. Chorão é um Dario Peito-de-Aço da música. Camelo é um misto de Chico Buarque com Romário. Ambos fazem gols, cada um ao seu estilo. Nenhum deles é vítima.
Aliás, se tem uma vítima nisso tudo, é o público. Que viu nos dois casos dois shows chochos no Piauí Pop. Aliás, os dois únicos shows chochos. O do Charlie Brown cheio de mensagens cifradas, antipáticas e direcionadas ao Los Hermanos. O do Los Hermanos com um ar quase que calculadamente triste e um olho roxo em primeiro plano. Acima, até mesmo, das belas letras da banda.
Que o Piauí Pop, uma festa de tantos belos exemplos, sirva, com esse caso Chorão x Marcelo Camelo, para que nos lembremos que cabeças são feitas para pensar, e não para agredir. E que a língua é um músculo que auxilia no processo da fala e, consequentemente, pode ser usada para desferir rosas ou facas em forma de palavras.


* ¿Vento, Ventania¿, é música do Biquini Cavadão. Merecidamente, o mais novo xodó dos piauienses. Semana que vem falo sobre eles.