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Sexta-feira, Junho 18, 2004
O TENDÃO DE BRAD PITT

O mais chato do filme Tróia é ver, em tela tão grande, o Brad Pitt. Mais do que chato, é quase insuportável. Pelo menos para nós, homens. Ver aquele cidadão na tela grande do cinema faz com que nós, homens normais, carecas, um tanto quanto barrigudos e com pêlos nas costas nos sintamos muito mais próximos do Homem de Neanderthal. Sinceramente, deviam proibir este rapaz de aparecer nos filmes de Hollywood. Ou, então, vá lá, pode aparecer, mas com ressalvas. Por exemplo: não poderia haver um close de Brad Pitt. Ou, então, ele só poderia ser gravado a uma distância mínima, digamos, de noventa metros. Ou: Brad Pitt só poderia fazer papéis de seres monstruosos ou deformados, como Corcunda de Notre Dame, Homem Elefante, Frankenstein, Nosferatu, Jason e afins. Não é por nada, não. É apenas uma questão de preservar a auto-estima que nós, pobres e feios mortais, temos jogada por terra quando estamos no cinema e vemos aquele moço em big close. É questão de saúde pública.
É sabido que nós, indivíduos do sexo masculino, estamos sempre nos julgando superiores. Mesmo que sejamos cópias fiéis de Danny de Vito, acreditamos ser irresistíveis. Mesmo que tenhamos o charme de um Mazzaropi, nos olhamos no espelho e enxergamos Robert Redford. Podemos ter o físico do João Gordo que colocamos uma camiseta, vamos balançar as pelancas no calçadão e nos sentimos Gianechinni. Ver Brad Pitt no cinema arrasa nossas convicções masculinas mais arraigadas. Nos afunda na cadeira. Dá vontade de chorar. De procurar o Ivo Pitangui e fazer uma bela plástica. De fazer implante, ir pra academia e comer alface o resto da vida.
Quanto ao filme, puro cinemão. Filme para se ver numa segunda-feira à tarde, matando serviço e comendo pipoca com guaraná. Muitas cenas de batalhas, um ou outro canastrão, uma Helena de Tróia definitivamente maravilhosa e que, se tiver sido linda daquele jeito, justifica qualquer guerra. Aliás, Helena de Tróia é uma figura interessante da mitologia, que o filme não valoriza muito. Diz-se que era a mais linda das mulheres. Filha de Zeus com a mortal Leda, que era mulher de Tíndaro, rei de Esparta, Helena de Tróia era casada com Menelau. Um belo dia conheceu Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, despachou o marido e fugiu com ele. Como não poderia deixar de ser, daí aconteceu a famosa Guerra de Tróia, que durou sete anos. Até que Páris morreu e a lenda se divide em várias versões. Numa delas, Helena, que pelo visto não era lá muito flor que se cheirasse, casou com o cunhado, Deífobo. Mas depois entregou o terceiro marido ao mesmo Menelau, para salvar a pele quando Tróia foi derrotada, e voltou para o primeiro marido, voltando então para Esparta e vivendo com ele até a morte. Já outra versão diz que Helena sobreviveu mas foi expulsa de Tróia pelos cunhados, e enforcada em Rodes por Polixo, uma rainha que perdeu o marido na Guerra causada por Helena. Outra versão diz, ainda, que a mocinha danada acabou mesmo foi vivendo com Aquiles, o do calcanhar, que no filme Tróia é o Brad Pitt, que, aliás, morre no final.
Pois bem. Tudo isso para dizer que, mesmo o Brad Pitt, com todo seu charme e beleza que beira a sacanagem com os espécimes masculinos da raça humana, tem, com o perdão do trocadilho, um calcanhar de Aquiles. Durante as gravações do filme, Brad Pitt teve uma contusão no tendão de Aquiles, não o do personagem, mas o tendão, mesmo, dele, Brad Pitt, que é, no caso o Aquiles. Ah, você entendeu... Isso obrigou a produção a ser atrasada até que ele se recuperasse.
Portanto, homens de todo o mundo, uni-vos! Quando sua namorada, noiva, ficante ou esposa disser que ele é lindo, encha o peito, sorria de lado e diga: ¿Pode ser, mas também tem o seu calcanhar de Aquiles¿. Não vai adiantar nada, eu sei.
Mas, pelo menos, é uma forma de nos sentirmos um pouquinho iguais a ele.


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Quinta-feira, Junho 03, 2004
SOBRE COISAS QUE ANDO IMPLICANDO - II

Ando muito, muito implicante. Ando implicando com tudo. Pura rabujice. Deve ser a idade.
Ando implicando com gente que põe muito perfume. Insuportável! Perfume demais deveria dar processo por poluição do ar. Deveria existir um medidor, assim como existem os medidores de decibéis. Passa alguém na rua, o detector apita e chega um guarda.
- Minha senhora, São seis e meia da manhã e, a essa hora, só é permitido transitar com até uma gota de perfume atrás de cada orelha. O perfumômetro acusa que a senhora usou pelo menos meio litro. Vou ter de multá-la. Não, não, não me ofereça dinheiro, senhora, senão a coisa vai feder!
Ando implicando com os políticos. Todos. Bom, quase todos, porque ando desimplicando com o Lula. Não sei porque, não me pergunte. Acho que é porque eu sempre gostei dele. Mesmo que ele tome umas canas por aí, o que é pura implicância da oposição. Mas, mesmo assim, ainda bem que PIB é Produto Interno Bruto. Se fosse líquido, sei lá, vai que ele bebia.
Ando implicando com o Zeca Baleiro. Com ele e com o Caetano, aliás, com o Caetano já há algum tempo. Ando implicando também com a TV brasileira. Chata. Burra. Ando implicando com o Felipe do Flamengo. Não sei bem porque. Um pouco por ele ser do Flamengo, mas não sei explicar se é só por isso. Ou se é por ele ter cara de malandro. Impliquei com quem tem cara de malandro, jeito de malandro e sotaque de malandro. Impliquei e pronto. Mas nunca impliquei com o Ronaldo Fenômeno, mesmo estando ele parecido com a Vovó Mafalda. Em compensação, impliquei de uma vez por todas com o Maradona. Ele não está a cara da Alcione? Ou é implicância minha? Vai ver é porque ele está mesmo em fim de carreira. Ou no fim das carreiras. Ou no fim por causa das carreiras. Ah, mas tanto faz. Impliquei.
Outro dia fui ao cinema e impliquei com o filme. Van Helsing. Bobo, chato, feio. Não creio ser implicância, mas pode ser que seja. Mas não impliquei com o Kill Bill. Apesar de sempre ter implicado com o Tarantino, mesmo sem implicar com os filmes dele.
Ando implicante, mesmo. Implico cada vez mais com o Galvão Bueno. Outro dia ele disse que a reta do circuito de Mônaco é torta. Como assim, uma reta torta?O que fizeram com a geometria? Cala a boca, Magdo! Sei, sei... Foi força de expressão. Mas impliquei, ora!
Implicar com as coisas acontece de repente. Não se explica. Você gosta de algo, até, mas, por algum motivo, de repente implica com esse algo. Tem coisas que a gente implica sempre. Tem coisas que a gente desimplica depois de algum tempo. E tem gente que diz que não implica com nada. Mentira. Quem diz isso diz só para implicar com a gente.
Eu implico, sim. Ando implicando com o espelho, Por exemplo. Chato, esse negócio de espelho! Até porque espelhos implicam com a gente sempre. Sempre mostram uma ruga nova, um fio de cabelo branco novo, ou uma falta de cabelo mais acentuada. Aí a gente implica com a gente. Aí a coisa complica. Porque quando a gente implica com a gente, implica que a gente ficou tão implicante, mas tão implicante, que é capaz até de fazer um texto falando sobre isso só pra implicar com o leitor. Desculpe. Não implique comigo. Isso passa.