Farinhada |
Comments: Sexta-feira, Março 12, 2004
UMA LÁGRIMA POR MADRI
Pouco me importa se foi a ETA, a Al Qaeda ou o Movimento Pela Libertação dos Anões de Jardim. Nada, absolutamente nada, justifica explosão de trens, derrubada de prédios e outras formas de assassinato em massa. Nenhuma causa, nenhuma reivindicação, nenhum sonho, nenhuma luta é suficientemente relevante para dar legitimidade a essa forma de massacre de gente inocente, de crianças, de gente que não sabe sequer o que significa país, quanto mais o que é política internacional, alcorão ou o que quer que seja. As duzentas mortes do 11 de março em Madri trazem de volta à lembrança as cenas de horror do outro 11, o de setembro, em Nova Iorque. Feridas que não cicatrizam, que horrorizam qualquer pessoa com o mínimo de massa cinzenta no cérebro e um pouco de sangue nas veias. Imagens que não deixam dúvidas: não existe nada tão cruel nesse mundo quanto a raça humana, única que gera seres capaz de produzir coisas tão bárbaras, tão violentas. Pouco me importa se foi a ETA, a Al Qaeda ou qualquer outra sopa de letrinhas que destrói, mata e apavora em nome do que quer que seja. Se foi a ETA, que se danem eles e a sua causa. Uma causa que beira o ridículo, de separar uma região rica e próspera de um país que cresce e encanta o mundo, e que não tem o apoio nem de um terço dos que, em tese, deveriam apoiar a tal separação. Se foi a Al Qaeda, que se danem Bin Laden, eles e sua causa, causa de, em nome de alguma coisa que ele chama de religião, transformar o mundo em um paraíso de turbantes e longas barbas. Se foi outra organização assassina qualquer, que se dane essa turba e suas reivindicações. Que se danem os seus ideais, que se danem as suas convicções imbecis. São, simplesmente, assassinos, bárbaros, cruéis, covardes, incapazes, inclusive, de admitir claramente que são os responsáveis. Não são líderes, não são heróis, não são nada além de excremento sobre duas pernas. Covardes. São, apenas, covardes com detonadores nas mãos. Pouco me importa, na verdade, se Bush é o que quer que seja, se Blair é o que quer que seja, se Aznar apoiou quem quer que seja no que quer que seja. Sejam eles quem forem, sejam eles aberrações ou não, não é possível aceitar, como ainda existe gente que aceita nesse mundo, que atitudes como matar duzentas pessoas que vão ao trabalho, que vão às compras, que vão visitar parentes, que vão procurar emprego numa ensolarada manhã de um dia 11 qualquer, sejam justificadas com o que quer que seja. O único consolo é perceber que essa mesma raça humana, capaz de produzir esses bandidos assassinos é capaz de produzir cenas de comover qualquer pessoa dotada de um coração nesse mundo. Gente simples, comum, que com sangue misturado a lágrimas e desespero e esperança e medo e dor e espanto e sem carregar qualquer bandeira política simplesmente ajuda, doa, doa sangue e lágrimas e amparo e esperança a quem sentiu na carne a dor da barbárie. Vai chegar o dia em que essa gente, gente que, sim, é gente de verdade, que fala com o idioma da alma e professa a religião da compaixão e reza a oração da vida, vai estar à frente de todos os países, de todas as religiões e de todas as convicções. Uma lágrima pelos mortos de Madri. Uma lágrima por mais essas vítimas da estupidez. |