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Quarta-feira, Janeiro 28, 2004
SÓ NÃO REFORMARAM O SUCATÃO

Agora senti firmeza! O Presidente começou a cumprir as promessas de campanha.
Com a reforma ministerial foram criados 2.797 novos cargos no Governo. Para dez milhões faltam apenas nove milhões, novecentos e noventa e sete mil, duzentos e três novos empregos. Apesar de que só em São Paulo mais de um milhão e novecentas mil pessoas ficaram desempregadas em 2003, mas deixa pra lá. Deixa nos dez milhões prometidos, mesmo.
Aliás, uma das coisas que mais tem se visto no país é reforma. Já foi reforma no Palácio da Alvorada, reforma da Previdência, reforma ministerial. Só o Sucatão não vai ser reformado. Vão comprar um avião novo. Não dá para um presidente ficar viajando pra lá e pra cá, especialmente para o primeiro mundo, num avião que se chama Sucatão. É mais ou menos como você ser convidado para uma festa chique e chegar num Fusca. Dizem que quem deu essa dica pro Lula foi o Bush Júnior, na última vez que se encontraram. Bush disse: "You are what you drive". Lula não entendeu. Mas o Ministro da Cultura da Jamaica, Gilberto Gil, estava presente, e traduziu: "você é o que você dirige". Sorte que, antes do avião novo, Lula foi pra Índia. Dá pra chegar lá de Sucatão sem passar vergonha. Depois ele vai para Genebra. Não quer ir de Sucatão, mas, pelo visto, não vai ter jeito. A solução vai ser chegar lá de madrugada. Menos gente vai ver. Ou, então, colar um adesivo no pára-brisa do Sucatão: "meu outro avião é um Airbus". Daí fica parecendo um milionário excêntrico.
Lá na Índia nosso presidente viajandão disse que os empresários brasileiros choram demais. Ora... Com os juros do jeito que estão queria que eles fizessem o quê? Disse também que os empresários indianos são mais corajosos. Claro. Subsidiado pelo Governo, até eu fico. Os juros lá são de 6 por cento ao ano. Nos Estados Unidos, 1 por cento. No Brasil, 10 por cento. Juros reais, fique bem claro. Lula mandou o recado: "aprendam a vender mais do que a reclamar". Só faltou mandar o pessoal fazer um curso de seis meses no Senac. Ele disse que os indianos, sim, são ousados. Pelo visto, confundiu as coisas. Ele quis dizer que Indiana Jones sim, era ousado. Mas acontece. Vai ver é a cerveja que ele anda tomando com o Zeca Pagodinho.
Por falar em andar tomando alguma coisa, nossos digníssimos parlamentares continuam tomando grana da gente com convocações extraordinárias. Que coisa! Cada vez mais penso que o Congresso deveria ser mais ou menos assim: ao invés de gabinetes, deveria ter kitinetes. Nada de apartamentos funcionais, auxílio-moradia, nem coisa nenhuma. Todo mundo morava mesmo em seus Estados de origem. Ninguém tinha salário. Aí, uma vez por semana, o Sucatão passava de Estado em Estado recolhendo os parlamentares e levando pra Brasília. Eles dormiam em suas kitinetes, no dia seguinte pegavam seus macacões (nada de terno!), trabalhavam, passavam no caixa para receber sua diária e, em seguida, o Sucatão os levava de volta pra casa. Pronto. Com certeza era mais econômico. Davam uma utilidade pro Sucatão. E continuava com a jornada semanal de trabalho da grande maioria: um dia por semana. Claro, tem os que insistem em trabalhar mais um pouco. Mas esses, coitados, são meio doidinhos e ficam calados. Se bobear, até devolvem o dinheiro das Extraordinárias.
Escondidos do Inocêncio, lógico, que odeia desrespeitar a Constituição.



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O QUE É A "FARINHADA"

Estou há horas tentando colocar aqui o meu perfil e não consigo.
Por isso, aí vão algumas informações sobre o blog e sobre mim.
Meu nome é André Gonçalves, tenho 35 anos, sou redator publicitário e um dos donos da SA Propaganda, e moro em Teresina, Piauí. É, Piauí. Isso mesmo.
Farinhada é uma coluna semanal publicada aos domingos, no jornal O Dia, de Teresina, desde agosto de 2002. Antes, eu escrevi a coluna Na Banheira, diária, na Copa de 2002.
É isso.
Se você quiser saber mais algo sobre mim, tenho outro blog: clica aqui que você vai lá. Nele, contos, comentários, pequenas bobagens.
Além de redator publicitário e colunista, sou também fotógrafo. Clicando aqui você vai para o meu fotolog.
Pronto. Agora é só você ficar ligado e mandar suas mensagens e comentários. Aceito críticas, e adoro. São elas que fazem a gente melhorar.
Abração, e obrigado pela visita.
Um dia eu acerto o template... rs rs rs


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Domingo, Janeiro 18, 2004
RECIPROCIDADE JÁ! (Farinhada de domingo, 18 de janeiro de 2004)


Mas diz aí a verdade: aquele piloto americano que deu a dedada para a reciprocidade não é a cara do Larry Passos, técnico do Guga?
Pois bem, danou-se! Para ser coerente com essa bobagem que arrumou, se bobear o Governo viajandão brasileiro vai fazer o que mais gosta: vai organizar uma comitiva e viajar para Nova Iorque. Lógico, vai colocar o piloto do avião para dar uma dedada nos americanos, também. E tem de passar na CNN e na Fox, senão não vale. Mais: precisa ser capa dos maiores jornais de lá. Porque reciprocidade que se preza é assim: olho no olho, dente por dente e dedada por dedada!
Bem aqui entre nós, e que ninguém nos leia, essa história toda parece birra de menino. Ah, eles fazem assim? Pois agora eles vão ver! E colocam os pobres, ou melhor, os ricos turistas americanos que vêm torrar por aqui seus dólares, gerando empregos e movimentando a tal "indústria sem chaminés", para tirar fotos vagabundas segurando um pedaço de papel ridículo com um número escrito com caneta vermelha. Poderiam, pelo menos, fazer um negócio mais caprichado, não? Parece mesmo coisa de republiqueta de filme. Nem ao menos se dignaram a fazer umas fichas decentes, meu Deus! Nem para usar o Duda Mendonça para criar umas peças legais. Ia ser interessante: americanos segurando um cartaz, com sua identificação, e, no cartaz, uma frase tipo "I Love Lula", ou "Brazil its Beautiful". Se possível, até com uma mulata ao lado. Eles iam adorar e, até, pedir cópias para levarem para os States como souvenir.
Mas é engraçado como eles, os ianques, se sentiram incomodados com isso tudo. Percebe-se, na atitude do piloto com cara de técnico do Guga, o sentimento americano de donos do mundo. Certo, nem todos são assim. Uns se acham donos, outros, sócios. Mas é aquela atitude de "quem é você para me barrar e pedir documentos?". É mais ou menos como aquela frase muito utilizada nas blitzen (eu nunca sei o plural de blitz, alguém sabe se é isso aí?): "você sabe com quem está falando?". De certa forma, em sentido figurado ou nem sempre, é isso que nós, brasileiros, fazemos sempre que somos barrados numa barreira policial ou quando furamos a fila no supermercado: damos uma dedada para as instituições e para as leis. Invocamos nossa superioridade e oferecemos um troco pro guarda. Passamos na frente de grávidas e velhinhos que compram fraldas geriátricas. Damos uma dedada para a humildade e para o respeito.
A dedada do sósia engraçadinho do Larry Passos serve para que possamos refletir várias coisas. Como, por exemplo, até que ponto uma atitude governamental não passa de burocracia ridícula e, portanto, passível de nos deixar irritados, da mesma forma que a necessidade de preencher fichas e fichas e levar centenas de documentos numa repartição pública qualquer quando só queremos abrir uma loja de balinhas de hortelã no Mercado Central.
E tem mais: já que o Governo está usando como escudo o tal "princípio da reciprocidade", estamos todos ansiosos para que ele (o Governo) use o mesmo princípio para dar reciprocidade à confiança que recebeu nas urnas. E dar reciprocidade arrumando os empregos que prometeu, as escolas, a segurança, a saúde pública.
Esse sim, é o princípio da reciprocidade que deveria estar sendo badalado. Não o da vingancinha de suburbana da novela das seis.



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Sábado, Janeiro 10, 2004
Sobre Coisas Que Ando Implicando - I (Farinhada de domingo, 11 de janeiro de 2004)


Depois dizem que é implicância minha.
Mal começou o ano e já tem samba-enredo tocando sem parar na televisão. Daqui até o fim de fevereiro vai ser um tal de "epababaô, ô ô, ê á, Iemanjá meu rei, epalarará" que não acaba mais. Pior: todos são absolutamente iguais. E os títulos? Por exemplo: o samba-enredo da escola de samba carioca Unidos da Tijuca tem o título de "O Sonho da Criação e A Criação do Sonho, A Arte da Ciência no Tempo do Impossível". E o refrão: "É tempo de sonhar/É tempo de alquimia/Querer chegar à perfeição (BIS)/Com tecnologia".
Já o da Beija-Flor é: "Manôa - Manaus - Amazônia - Terra Santa... que Alimenta o Corpo, Equilibra a Alma e Transmite a Paz". Olha a letra: "Ajuricaba me chamou/Para luta contra o invasor/Tupã o pai me abençoou/Ressoa o tambor, ôô". Olha o "ôô" aí, gente! Pode, uma coisa dessas? E o do Salgueiro? Preste atenção: "A Cana que Aqui se Planta Tudo Dá, Até Energia... Álcool, o Combustível do Futuro". Sinceridade: dá pra encarar? Para mim, não dá.
Pior que, aqui, vai ser do mesmo jeito. Já tem samba-enredo tocando na televisão. Imagine! Nada contra, lógico... Mas muito menos ainda a favor. E não adianta vir dizer que estou implicando com uma manifestação cultural importante, etc etc etc, que eu não estou, não. Estou implicando é com a chatice dos sambas, com a pretensão e idiotice das letras, e com as macaquices de imitação que se faz do carnaval do Rio. Que, como todo mundo sabe, é para inglês ver. Ou melhor: para japonês, alemão ou americano ver. Tenho certeza absoluta de que poderia ser diferente. No mínimo, menos chato. O que fizeram com o carnaval foi um crime.
Eu sei que ando meio implicante, mesmo. Sou réu confesso. Ando implicando com muita gente. Por exemplo, com Sandy e Júnior. Fui ver o filme deles. Gente... O negócio não tem pé nem cabeça! Até Teletubbies é mais divertido. Ah, tá... É um filme para adolescentes, sei... É, mas é ruim, assim mesmo. A Sandy, tão bonitinha, tão simpatiquinha, tão inhazinhazinha, continua cantando com voz de sertanejo. Continua "inha". E engraçado: ela dorme, acorda, toma banho, e tá maquiada. Parece a maquiagem da Barbie. Mas o que me incomodou mesmo foi o Júnior. Já que o filme se chama Acquaria, ele fez o papel de água. Insípido, incolor e inodoro. No popular: não fede nem cheira. Certo, não deveria esperar tanto de alguém que se chama Júnior. Mas a interpretação dele foi demais. Ou, no caso, de menos. O melhor do filme é a abertura. Depois, a melhor parte é o fim. O melhor intérprete é o farol abandonado que fica ao fundo em boa parte das cenas. Ruim mesmo. Pior ainda que eu assisti na sala 5, dos cinemas do Teresina Shopping. Pensei que estava com algum problema auditivo mas, depois de perceber que ninguém tinha entendido quase que nenhuma palavra do filme, entendi que o problema não era eu: o som de lá está quebrado. Deviam tomar uma providência. É impossível ouvir qualquer coisa por lá. Será que quem manda naquele treco não percebeu ainda? Será que ficou surdo? Pois sugiro um boicote à sala 5. Enquanto não arrumarem o som, a gente não vai lá. Eu não vou. Porque pagar 12 reais para ver um filme em português e não conseguir entender uma palavra merece que se peça, no mínimo, o dinheiro de volta. Ainda mais se for o filme da Sandy e do Júnior.
Tá bom, eu sou implicante. Então vai lá. Quero ver o que me diz depois. Mas não vá dizer que eu não avisei, viu?



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"Lounge" é um Lugar que Não Existe

"Lounge" é a palavra da moda. Tudo agora é ou tem alguma coisa "lounge".
Para quem não sabe, "lounge" é uma palavra do português moderno contemporâneo que significa ociosidade, lugar de descanso, poltronear-se, vadiar, espreguiçar-se... Aliás, um tempinho que estou me "loungeando" aqui, que acordei muito cedo hoje... Pronto. Bem, continuando... Já existe a música "lounge", as festas têm "ambientes lounge", já existe, na moda, a tendência "lounge". Enfim, 11 em cada 10 descoladinhos usam "lounge" a cada duas frases.
Um ambiente "lounge", ao contrário do que a primeira vista pode parecer, não é um lugar longe pra caramba. Um ambiente "lounge" é um espaço, nas festas, onde as pessoas têm, à disposição, almofadas, poltronas, sofás, para descansar, para esticar as pernas, para recarregar um pouco as forças no meio da balada. Bem, isso em teoria. Na prática, os ambientes "lounge" estão meio longe (trocadilho infame, esse...) de serem locais de descanso. O que mais se vê nas raves por aí (nota do tradutor: rave, outra palavra do português moderno contemporâneo, que se lê "rêive", é uma festa que começa com hora marcada e só acaba quando termina, ou por falta de quem continue dançando ou por morte do DJ) são casaizinhos aproveitando o escurinho e o clima para, digamos, namorarem "lounge" dos olhares mais curiosos. Agora, não é qualquer pessoa que têm acesso a festas com ambiente "lounge", não. A não ser que tenha muito "style", é preciso torcer para um "friend" descolar um "flyer" (palavra do português moderno contemporâneo que, na prática, é o mesmo que "convite", que já virou uma palavra meio "down").
Já a moda com ar "lounge" eu ainda não descobri o que é. Imagino que seja uma tendência onde as roupas têm cara de roupa de dormir, a julgar pela origem da palavra. Baby-dolls devem ser roupas de tendência "lounge", assim como pijamas de bolinhas e ceroulas. Aliás, ceroulas verdes são excelentes para se cair nos braços de Morfeu.
Músicas "lounge" são as novas versões das cantigas de ninar. Ouvi outro dia e gostei muito de "Dorme Nenê" em versão "trance" (trance: mais uma palavra do português moderno contemporâneo que designa um tipo de música, algo assim entre o techno e o bate-estacas da construção aí ao lado da sua casa). Já a versão de "Boi da Cara Preta" eu não curti muito, não. Sei lá, ficou algo assim meio "over" (over, leia-se ôver: palavra do português moderno contemporâneo que significa demais, muito, além da conta). Vamos aguardar mais lançamentos.
Bem, o fato é que, entre tantas outras, "lounge" é a palavra da vez. Até pouco tempo atrás, ela (a palavra da vez) era "printar".Outro dia mesmo foi "powerful".
Mas isso faz parte da evolução da língua. Aliás, poucas línguas mostram tanta força para sobreviver a estrangeirismos como a língua de Camões, que, de certa forma, acaba ficando ainda mais rica.
Ainda bem. Ou, em bom português moderno contemporâneo: "fortunately".




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República dos Bananas

Começo a acreditar que somos, na verdade, um país de bananas. Não a República DAS Bananas, mas, sim, DOS bananas. Não creia você que me "incluo fora dessa", não. Isso serve como um mea-culpa, com a carapuça sendo colocada na minha cabeça e servindo direitinho.
E porque cheguei a essa conclusão? Ora... Assistindo aos telejornais, às novelas... Vendo e observando as pessoas nas ruas, conversando nas festas. Lendo jornais e revistas. Olhando a vida, simplesmente.
Tomemos por exemplo o caso do Gugu. O que ele fez? Nada que não tenha feito antes. Armou (ele, ou a produção dele, tanto faz) uma mentira, colocando gente que não era o que dizia ser dizendo que ia fazer algo que não ia fazer. Nada de novo. Ele sempre fez isso, e briga pela liderança da audiência aos domingos há anos, com atrações do gênero. E aí, o que aconteceu? Foi preciso que a excrescência da tv, os programas do "mundo-cão", mostrassem o que aconteceu. Os mesmos que fazem dos tais membros do PCC, do Comando Vermelho, de tudo isso que não presta, popstars com espaço diário de horas para desfilar suas armas, suas ameaças, suas "realizações em prol da comunidade". E, o que aconteceu? A audiência desses excrementos de telejornalismo disparou. Quer dizer: o mundo-cão mostrando o que está por trás do mundo-cão. E, nós, criticando tanto o mundo-cão, entramos nele para ver a desgraça do apresentador afilhado do Sílvio Santos.
Sim, mas e daí? Onde entram os bananas nessa história?
Entra no fato de que se começou a discutir a volta da censura, a responsabilidade do Governo em impor limites, e por aí afora. Ótimo, acho que se existe uma concessão pública, o que é feito com essa concessão é, sim, passível de controle pelo "concessor". Mas, vem cá... Não estamos nos livrando demais das responsabilidades, não? Para tudo temos tido uma desculpa. Os motoristas não param nas faixas de pedestres? Culpa do governo, que não educa, culpa da propaganda, que não educa, culpa da sinalização que é deficiente. Ora, e a faixa já não é sinalização? Cadê a sua culpa, a minha culpa? Cadê a culpa de quem não ensina aos filhos o que é respeito pela vida, o que é solidariedade? A tv banaliza a violência? Ué, mas quem é que tem o controle remoto na mão para desligar a tv? Quem é que tem a voz de comando dentro de casa para dizer "isso não, meu filho, que é ruim"? Que tal um teste: vamos, todos, desligar as tvs aos domingos, de 2 da tarde às 10 da noite. O Brasil inteiro. Será que ainda vai existir o programa do Gugu? "As crianças de hoje só pensam em videogame, estão precoces". Caramba, quem compra os videogames? Quem cria os filhos? "Crianças de quatro, cinco anos só pensam em roupinhas da Xuxa". Mas quem tem o poder de comprar ou não, de dizer, simplesmente, "não"? Ah, a violência está absurda. Sim, está. Mas onde nós estamos quando não exigimos e brigamos por mais escolas, por mais empregos? Mas os políticos não prestam. E quem vota, por favor? Não somos eu, você, seu pai, sua avó? Onde está a sua responsabilidade quando você, de dentro de sua "célula-protetora-com-quatro-rodas-e-duzentos-cavalos" com ar-condicionado, parado num sinal de trânsito, simplesmente ignora aquela nariz catarrento que pede um trocado, como se fosse apenas mais um nariz catarrento enquadrado por uma câmera de tv mundo-cão?
Viu, quantas desculpas? É isso que eu tenho chamado de "bananalização". Ninguém tem a coragem de assumir sua parcela de culpa. É medo de ser chamado de repressor, de careta, de antiquado. E, por isso, vamos nos transformando em bananas que confundem liberdade com vale-tudo. Que confundem responsabilidade dos governantes com isenção de culpa do cidadão.
Somos, sim, uns bananas, com duas pernas, dois braços e duas mãos, lavadas todos os dias nas águas sujas da hipocrisia.



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SOBRE BONÉS

O boné mais antigo de que se tem notícia é um que está em um museu na França, que tem aproximadamente 2.250 anos de existência. A propósito, a palavra boné tem origem na França, mesmo. Na verdade, era o nome que se dava ao ofício das pessoas que viviam de tecer, em malha, coberturas para cabeças, na época chamadas de casquetes de malha.
Diz a lenda que em 1800 um açougueiro inglês inventou o boné mais próximo do que conhecemos hoje, feito em gomos, com alça regulável na parte de trás e uma abertura. Essa inovação possibilitaria que se fabricassem bonés em escala industrial, e pessoas com tamanhos de cabeças diferentes poderiam usar o mesmo modelo, já que ele passou a ser regulável. Assim, por conta dessa revolução, tornou-se possível também aos cearenses a utilização de bonés, coisa que, com capacetes, ainda é meio complicado.
No final do século 19, especialmente com os atletas americanos de beisebol, tornou-se popular o modelo com copa justa e pala larga. Esse modelo, prático por proteger os olhos dos jogadores do sol e por se manter firme na cabeça mesmo enquanto eles corriam, caiu no gosto do povão ianque. Com o final da 2ª Grande Guerra, o modelo americano (como quase tudo que veio de lá desde então, de hotdog a Britney Spears) tomou conta do mundo, e passou a ser fabricado em diversos materiais: couro, veludo, vinil, PVC, e passou a ter cores vivas e ser utilizado como importante peça de divulgação de marcas. A tal ponto que hoje torna-se quase impossível imaginar um atleta sem um boné. Diz-se na comunidade científica, inclusive, que está em estudos a inclusão do boné como parte integrante do corpo de um piloto de Fórmula 1, que passaria a ser dividido em cabeça, tronco, membros e boné. Diz-se, também, que a Nike está estudando novos modelos para serem utilizados por jogadores de futebol durante as partidas, evidentemente com mensagens publicitárias piscando como aqueles efeitos medonhos da Globo. Serão modelos desenvolvidos de forma a potencializar as cabeçadas, possibilitando aos atletas dar efeitos na bola a um leve movimento de pescoço. Não é a toa que a maioria dos jogadores de futebol agora é careca: eles estão sendo levados aos laboratórios para terem medidas suas cabeças de todas as formas e, no caso de alguns, serem colocados enchimentos no lugar dos cérebros, para eles inúteis. Mas já há casos de rebeldia: Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, está deixando aquele cabelo horroroso e emplastado crescer como forma de boicote.
Além dos esportes, a política também usa sobremaneira (sempre quis usar sobremaneira em um texto!) os bonés. Em toda campanha eleitoral, centenas de milhares deles são dados para os eleitores. Aliás, bonés de péssima qualidade, diga-se de passagem. Ao contrário dos bonés dos atletas, os bonés dos políticos são um retrato da imagem da classe: feios, grosseiros, desbotam cedo, rasgam depressa. Mesmo assim, poucos são os homens da vida pública que não se rendem a um boné de campanha.
Deve ter sido isso que aconteceu com Lula. Como ele ainda pensa que está em campanha, viu um boné vermelho, pensou que era do PT e tascou na cabeça.
Não era do PT. Era do MST. Criou polêmica. Gerou fofoca. Causou revolta.
Para mim, nada demais. Foi o típico caso da carapuça servir direitinho.



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HOJE É MEU DIA DE PEDIR (19 de outubro de 2003)

Peço, solenemente, nesse minifúndio de papel, que você, quando me encontrar por acaso em alguma praça verde de Teresina, na areia de qualquer uma das praias de Luís Correa ou em meio às pedras riscadas da Capivara, não reclame do calor. Porque eu gosto, gosto muito de sentir este calor. Prefiro o calor ao frio, e prefiro o muito calor ao morno.
Peço, também, que, quando você se der frente a frente comigo, nunca diga que algo ou alguma coisa "nem parece que foi feita aqui". Porque, não parece que foi feita aqui? Não pode? Não foi feita? Então, porque não parece? Se não pudesse ter sido feita aqui, não teria sido. Mas foi. Então não só parece como é daqui, sim.
Como ando mesmo um tanto quanto abusado e pidão, peço, com muita "pidança", que você, ao me encontrar numa noite estrelada qualquer, não reclame que não vê nem uma folhinha se mexendo por falta de vento. Eu detesto vento. Adoro a falta de vento. E porque as folhas deveriam estar se mexendo, oras? Deixe elas descansarem, que já trabalharam muito produzindo oxigênio pra gente. Vento também atrapalha o cabelo. No meu caso, nenhuma diferença, mas, no seu, pode fazer.
E como minha "pidança" anda desenfreada, peço mais: peço que pare de falar que somos pobres. Não somos. Podemos não ter muito dinheiro. Podemos ter carência em algumas coisas. Mas ser pobre é outra coisa. Ser pobre é não ter alma, não ter alegria, não ter solidariedade, não ser hospitaleiro, não ser simpático. Isso é ser pobre. O fator "dinheiro" não faz ninguém, na verdade, pobre ou rico. Ao menos, é isso que eu acho. Não precisa concordar comigo. Mas, por favor, não nos chame de pobres na minha frente. Não somos. Se você acha isso, pobre é você.
Vou continuar pedindo. Não se incomode, é que hoje é nosso dia. No nosso dia dizem que a gente pode pedir o que quiser, não é? Estou, portanto, exercendo um direito que é meu. E vou pedir para que a gente pare de pedir as coisas. Peço que você faça mais e espere menos. Peço que você peça menos aos políticos, aos céus, a quem quer que seja, e realize mais. Construa mais. Valorize mais o que nós temos. Pare de pedir o que quer que seja, principalmente, desculpas. Pare de pedir desculpas por sermos isso ou aquilo. Seja. E tente melhorar o que preciso for. Porque isso me lembra aquelas pessoas que levam a gente para casa, a gente adora a casa, acha tudo lindo, aí a pessoa pede desculpas pela bagunça. A gente começa a prestar atenção na bagunça e esquece que gostou da casa. Não peça mais desculpas. Assuma que precisa melhorar, e lute para melhorar. Você, nós, não devemos desculpas a ninguém por sermos do jeito que somos. Nós somos do jeito que somos, e somos bons assim. Bons, não: ótimos! Melhores que a maioria. Talvez, não tão bons quanto uns poucos, verdade, mas nada que mereça um pedido de desculpas.
Por isso, não vou pedir desculpas por dizer essas coisas desta forma para você. Não vou pedir desculpas por esse nariz meio arrebitado que mostro aqui, hoje. Pelo contrário. Peço que você, que nasceu no Piauí ou que escolheu aqui para viver, deixe de se comportar como empregada da novela das oito. Arrebite o nariz. Enrole-se na nossa bandeira de couro de bode. Deixe de se maldizer e agradeça por ser daqui.
Mais do que isso: faça por merecer ser daqui.