Farinhada |
Comments: Sexta-feira, Julho 04, 2003
Efemérides
Hoje, 15 de junho, é o Dia do Paleontólogo. Para quem não sabe, paleontólogo é aquele (ou aquela) que estuda as espécies desaparecidas, baseados nos fósseis que vai descobrindo em suas pesquisas. Não sei bem se a Niede Guidon é paleontóloga, mas creio que seja. Parabéns, portanto, Doutora Niede! Engraçado existir um Dia do Paleontólogo. Gostaria de saber porque escolheram esse dia. Aliás, tinha muita vontade de saber porque escolheram as datas para certas homenagens. Por exemplo, ontem, dia 14 de junho, foi o Dia Universal de Deus. Não sei se o ¿Universal¿ tem algo a ver com a Igreja Universal ou com a onipresença do Criador. Mas, me diga: porque logo o dia 14 de junho é Dia Universal de Deus? Porque não 28 de fevereiro, ou 17 de agosto, ou 31 de novembro? Outra coisa, porque não foi feriado? Ora, se qualquer santinho aí vale um feriadão que emenda quinta, sexta, sábado e domingo, o Dia Universal de Deus merecia, pelo menos, um ponto facultativo durante uma semana, né não? Achei um desprestígio do Onipotente... Dia 24 de junho é Dia Mundial dos Discos Voadores. Como assim? Se no Dia dos Namorados a gente dá presente para nossa cara-metade, no Dia Mundial dos Discos Voadores acontece o quê? Passeios intergaláticos? E quem diabos escolheu esse dia? ET? Steven Spielberg? Dia 25 de setembro é Dia da Tia Solteira. Não achei o Dia da Tia Casada, nem o da Tia Divorciada, muito menos o Dia da Tia Viúva. Acho que nem preciso dizer o que você deve dar para a sua tia solteira, caso tenha uma: um marido. Ou, no mínimo, um noivo. Dois dias depois, 27 de setembro, é Dia do Instalador Hidráulico. Dois dias antes, 23 de setembro, é o Dia da Internet. Dia 29 de janeiro é Dia do Jornalista Católico. 10 de março é Dia do Sogro. 16 de março é Dia do Cavalo. Dizem que os bois ameaçaram uma revolta dizendo-se mais importantes que os cavalos, mas ainda não tiveram um lobby suficientemente forte para emplacar uma homenagem no calendário. E, convenhamos, render homenagens a um bicho que fica babando o tempo todo... Sei não... Já 12 de março é meu dia: Dia do Careca. Olhaí, não achei o Dia do Cabeludo! Seguindo: 7 de abril é Dia da Rádio-Patrulha. Como assim? Andam homenageando até rádio-patrulha? Já a homenagem do dia 2 de maio eu sei onde surgiu: na Bahia. É o Dia da Preguiça. Diz a lenda que era pra ser 2 de fevereiro, mas o pessoal foi deixando, deixando... Já o 25 de maio é Dia do Massagista, do Trabalhador Rural e Dia da Indústria, ao mesmo tempo. Um exemplo de confraternização de classes! Resumindo: todo dia é dia de alguma coisa. Tem Dia do Amigo, Dia do Futebol, Dia da Compreensão Mundial, Dia da Seresta, Dia do Anestesista, Dia da Cruz, Dia do Silêncio, Dia do Taquígrafo. A partir de hoje, acho que vou ficar com o calendário na mão para, todo dia, ver quem é o homenageado, para render as minhas homenagens já que sou um cara educado. Agora, se alguém souber me dizer como diabos vou render homenagens a uma rádio-patrulha, por favor, mande um e-mail. Comments:
Olha, gostei muito de você!
Tenho certeza de que não sou a pessoa mais indicada para falar de Liz Medeiros. Existem dezenas (talvez, centenas) de pessoas muito mais próximas, muito mais amigas, muito mais queridas por ela e que, com certeza, tiveram mais tempo de querer bem a ela, mais histórias, mais alegrias, mais proximidade do que eu. Mas, como ando acreditando cada vez mais que é preciso aproveitar todos os espaços e todos os momentos possíveis para se dizer o quanto se gosta de alguém, vou falar dela. Conheci Liz há pouco tempo. Muito pouco, acredito. E conheci como Beth, olha só. Estive com ela, se não me engano, apenas três ou quatro vezes. Mas, confesso: por algum motivo que incluo naquelas coisas que não tem explicação, foram momentos absolutamente marcantes. Em um desses encontros tive a sorte de ver, ao vivo, Liz pintando um de seus coloridos poemas visuais. Um daqueles quadros que são a cara dela: delicados, alegres, vivos, despojados. Nesse mesmo dia, Liz tentou me convencer a gostar de bolo de macaxeira. Ela me fez comer um pedaço e, com a minha teimosia em dizer que apesar de ótimo eu ainda não tinha mudado de opinião, ela disse algo como ¿ah, é bom demais, melhor que eu como por você¿, com um sorriso maroto. Enchemos a cara de refrigerante e café, eu, ela, minha Renata e o Valdir, comemos macaxeira cozida e outras coisitas que avacalharam nosso regime mas encheram nossa alma de alegria. Em outro desses três ou quatro encontros perguntei, um tanto quanto tímido, se ela topava ¿brincar¿ com algumas de minhas fotos, desenhando, pintando em cima delas. De novo, ela me surpreendeu, e disse que era só escolher as fotos e levar para ela. E, no mais marcante deles, Liz abriu sua casa para que eu e Renata pudéssemos receber nossos amigos na comemoração de nosso casório. Quer dizer: por mais breve que tenha sido nossa convivência, não tem jeito: ela esteve presente em pelo menos um dos mais emocionantes momentos de minha vida, e fez, de outros, alguns daqueles instantes aparentemente banais da vida, exemplos do quanto pequenas coisas podem nos tocar profundamente e nos fazer felizes. Não posso dizer que fui amigo de Liz Medeiros. Mas posso dizer, e isso ninguém vai me tirar, que tive muita vontade de me tornar amigo dela. Inclusive, já estava no nosso calendário: todo dia 17, dia de ¿mesversário¿ de casório, eu e Renata iríamos passar na casa dela pra comprar tomate seco do Valdir, tomar café e, tenho certeza, dar boas gargalhadas que iriam fazer a gente quase se engasgar com pedaços do bolo de macaxeira que ela ia me fazer comer para ver se mudava de opinião. Só o fizemos uma vez. E lá, no mesmo lugar onde eu tinha vivido um momento tão feliz há tão pouco tempo e que, agora, me parecia tão triste, prometi a mim mesmo que ia deixar de cometer um erro que todos nós cometemos e que, ao contrário de alguns outros erros, são irreparáveis: o erro de acreditar que dá para deixar pra dizer amanhã que queremos ser amigos de alguém, que gostamos de alguém, que amamos alguém, que admiramos alguém. O erro de esquecer que, às vezes, a vida não espera aparecer o ¿momento certo¿ para que digamos essas coisas, e nos dá uma rasteira. Sei que não dá para reparar. Mas, como sei que de alguma forma isso vai chegar até ela, digo por aqui: olha, Beth, gostei muito de você. Comments:
Comida (?????) de Avião
Se você está, agora, dentro de um avião, partindo, por exemplo, para Recife, sinto lhe informar: a comida que vão lhe servir é péssima. Melhor. Ou pior, sei lá: já foi péssima um dia. Hoje, nem se pode chamar de comida. Para quem está saindo de Teresina e indo para Recife via Vasp, o avião deve fazer uma escala em Fortaleza. Daqui a pouco, você vai estar recebendo um embrulho de papel aluminizado com um treco dentro. Você acha até que deve ser algo interessante, mas é, apenas, um pão com presunto e queijo. Sem manteiga. Pobreza absoluta. Um pouquinho de manteiga não ia encarecer nada, mas, ao menos, ajudava a descer a gororoba. Ainda não cortaram o refrigerante, nem a água, e, se não me engano, ainda tem cerveja. Mas olha, cerveja com sanduíche frio de pão com queijo sem manteiga é ruim. Não recomendo. Acho que daqui a um tempo vai ser só água, mesmo, mineral sem gelo. Com tendências a evoluir para água de torneira.Vamos seguir viagem. Depois da escala em Fortaleza, você ainda vai para Natal. Não vai dar tempo de você comer nada no aeroporto de Fortaleza, então, contente-se com o pão com queijo e presunto sem manteiga, mesmo. No caminho para Natal, vão lhe servir um pacotinho de batatas fritas tipo Ruffles, com exatos 22 gramas de batatas. E mais refrigerantes. Mas, por favor, não peça um segundo copo, porque os comissários de bordo vão te olhar com a cara meio marota e dizer que não dá tempo. Vai levar uns 20 minutos para chegar, mas a recusa em servir-lhe um segundo copo, creio eu, deva ser porque a certas altitudes leva-se mais de 20 minutos para tomar um segundo copo de refrigerante, e você pode provocar um acidente terrível se o avião começar o procedimento de pouso enquanto toma um copo de 150 ml de Coca-cola. Sigamos em frente. Depois de Natal, sobe o avião de novo. E, desta vez, um novo lanche. Uma comissária (ou comissário) vai passar com uma bandeja cheia de copos de refrigerante e água. E só. Você pode ainda arriscar, quando a loira sorridente lhe perguntar ¿refrigerante, senhor (ou senhora)¿? Você diz ¿quais as opções¿? E ela responde: ¿sim ou não¿. Pode, isso? Eu sei que vão dizer que dar lanche, almoço e jantar em avião custa muito caro, que a gente acaba pagando mais pelas passagens, essas coisas. Mas, poxa, uma passagem Teresina/Recife/Teresina custa 1.137 reais. Não dava, ao menos, para colocar manteiga no pão? Sou do tempo em que a gente recebia uma maletinha com lanches, que a gente levava pros irmãos, pra fazer inveja pros amigos ou de presente para a avó. Tinha brigadeiro, tinha garfinhos, bolo de chocolate. Tinha um monte de coisas gostosas, ao menos para quem tem o paladar infantilizado como eu. E tem mais: acho que não se estudou a fundo a importância de se comer no avião. Para mim, o lanche durante o vôo não é só o ato de se alimentar: é se sentir superior ao resto da humanidade, ao menos enquanto dura o vôo. É relaxar, é esquecer que se está a 5 mil metros de altura numa cápsula pressurizada que pode explodir a qualquer momento, perder as asas ou desaparecer em pleno vôo. O lanche no avião não é só encher a barriga. É encher a alma com a certeza de que se está vivo, e que a vida vale a pena. Mas sanduíche de pão com presunto e queijo, sem manteiga, é o fim da picada. |