Farinhada |
Comments: Quinta-feira, Junho 12, 2003
Nó Górdio
Outro dia vi o Jair Menegueli na tv e, juro por Deus, pensei que fosse o ex-senador Freitas Neto. Em seguida, por uma fração de segundo, achei que era um industrial paulista que veio dar uma palestra em Teresina. Só depois de um ou dois minutos percebi que aquele bem apessoado cidadão era o velho Menegueli. O que um terno faz pela aparência de um homem, não? O Lula, por exemplo, só conseguiu se eleger presidente depois de aparecer em bem cortados ternos, ficando longe das velhas camisetas manchadas de suor e cheirando a óleo do começo, quando, ainda de barba à la Conde de Monte Cristo, perdeu a eleição para o governo de São Paulo. Está certo que, em seguida, eleito deputado federal, ele estreava o visual engomadinho. Mas era de uma deselegância absurda, chegando a aparecer na cerimônia da instalação da Constituinte de terno verde e gravata marrom. Hoje não. Nosso presidente aparece sempre em impecáveis e bem-cortados ternos, cores clássicas, combinações perfeitas. Nada de aberrações como terno bege com sapato preto, ou terno azul com sapato bege, ou terno verde com gravata laranja de bolinhas roxas. Hoje, os punhos dos ternos de Lula estão na altura correta (mostrando cerca de um centímetro do punho da camisa), as lapelas parecem ter a largura adequada (dizem os especialistas que a largura ideal da lapela é de 8 centímetros), os ombros estão corretamente marcados. Se observarmos bem, veremos suas gravatas com belos nós, muito bem dados. Acredito deva haver um Assessor Especial Para Nós de Gravata acompanhando o presidente para todo lado, tão bem dados estão os nós. Para aqueles que ainda criticam o fato de nosso presidente ter mudado tanto o visual, lembro que não há nenhuma incoerência entre o antigo operário estar hoje vestindo belos ternos. Pelo contrário. Para quem não sabe, antes de ser adotado como roupa nobre, o terno era usado no campo ou em casa, pelos trabalhadores, como roupas comuns. A força dos ternos como símbolo de status, elegância e poder surgiu com a Revolução Industrial, quando, no final do século 19, gente como Oscar Wilde e George Brummel dizia que ¿estar elegante é passar despercebido¿, inaugurando o estilo Dândi, ainda base para as ¿regras¿ do terno atual. Pois, ao contrário dos dândis, Lula, apesar de elegante, não tem passado despercebido. Tem chamado a atenção a sua transformação. Fora o visual ¿hay que endurecer¿, viva o visual ¿hay que respeitar o FMI¿! E fora, também, quem ainda tem cabelo comprido e diz que é contra a política econômica do FHC. E fora, também, o radicalismo! E fora, também, as camisetas de malha com buracos no sovaco! E fora, também, as sandálias de couro! E fora, também, os pôsteres do Che! Lula continua sendo um símbolo. O símbolo de que é possível evoluir, crescer. É possível aprender a se vestir melhor, é possível evoluir nas idéias, é possível evoluir na compreensão das coisas. Espero que Lula e os neo-dândis que aparecem, como Menegueli, completamente transformados nas entrevistas e solenidades, apenas não se esqueçam de que são símbolos de um povo que continua querendo um prato de comida por dia, para quem o último grito da moda é a camiseta da campanha de presidente do ano passado, dada pelo vereador de seu município em troca dos votos da família. E que, mais importante que cumprir a liturgia do cargo e aparecer bem na fita, é vestir as sandálias da humildade, jogar o paletó pro lado, arregaçar as mangas e começar a mudar de verdade este país. Porque, fora o visual do presidente, na política econômica e na vida do povo, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Comments:
MAMÃE, MAMÃE, MAMÃE...
Mãe. Taí um negócio que todo mundo tem. Eu tenho, você tem, seu pai tem, sua mãe tem. Negro tem, branco tem, índio tem, americano tem, iraquiano tem, japonês tem hindu tem, católico tem, budista tem, ateu tem, evangélico tem. Acredite, George Bush Filho tem mãe, Saddam também tem. Até juiz de futebol tem. Mais, ainda: mãe é um negócio tão farto, tão especial, que até o Diogo Mainardi tem. Mãe talvez seja o que existe em maior abundância no mundo. Tem em todo lugar, independente de raça, condição social ou time de futebol. O interessante é que, seja onde for que elas estejam, as características básicas são sempre as mesmas, com raríssimas exceções. Por exemplo: mãe cozinha bem. A mãe dos outros, nem sempre, mas a nossa sempre tem a mão para fazer a comida do jeito que a gente gosta. Menos as manetas, claro. Outra característica das mães é serem experts em meteorologia. Toda vez que uma mãe fala pro filho ¿leva o guarda-chuva que vai chover¿, chove. Mesmo que a gente olhe pra cima e veja um sol de ressecar manga no pé, chove. O engraçado é que a gente só acredita nisso depois de muitos ¿bem que minha mãe avisou¿. Não sei porque as tevês ainda insistem em colocar homens para dizer a previsão do tempo. Era mais fácil colocar mães. No lugar daqueles caras bonitões engravatados, uma senhora meio gordinha, com avental e lenço na cabeça, dizendo algo como ¿meu filho, se você tá aí no sul, cuidado, pega o cachecol e leva a galocha, que vai chover e fazer um frio dos diabos¿. Era batata. Que coisa preconceituosa essa minha de colocar mãe como uma senhora gordinha e de avental, não? As mães mudaram muito. Hoje em dia isso não representa mais a ¿mamãe¿. Tem mãe de todo jeito. Mães lindas, mães feias, mães altas e baixas, mãe prefeita, mãe atleta. Em Portugal, por exemplo, assim como no PT, tem muita mãe de bigode. Mãe é um negócio tão sério, mas tão sério, que já se faz crianças sem a presença de um pai, mas não se descobriu ainda como fazer um bebê sem mãe. Tem muita mãe chata, também. Mãe que pega no pé, mãe que não deixa a gente sair de casa, mãe que implica com o namorado ou namorada. E a gente acha chato porque mães também foram feitas para que a gente descubra que o mundo não é assim um mar de rosas, não. E que vai chegar o dia, queiramos nós ou não, que a gente não vai mais ter para quem correr na hora de um aperto, na hora do medo, na hora da fome, na hora da angústia. Se você não deu um beijo na sua mãe hoje, aproveite. O maior defeito das mães é que, um dia, sabe-se lá porque diabos, elas se vão. Mãe, um beijo! Comments:
ENTREGUEMO-NOS
Outro dia vi na televisão alguém se perguntando: o que é o amor? Uma cena boboca, dessas de novela, onde uma jovenzinha com a cabeça cheia de sonhos acha que amor é aquela coisa que a gente vê no cinema, fundos musicais maravilhosos, ais e uis a cada toque nas mãos e lágrimas nos olhos a cada beijo. Fiquei tentando achar não A resposta, até porque acho que não existe A resposta. Mas fiquei tentando descobrir o que é o amor. Sabe a que conclusão cheguei? Nenhuma. Mas me lembrei de uma historinha, que talvez não tenha nada a ver com isso ou, quem sabe, tenha mais a ver do que possamos imaginar. Uma historinha da mitologia grega, dos gêmeos Castor e Pólux, que simbolizam o signo de Gêmeos. Castor e Pólux eram gêmeos, mas de pais diferentes. Não me pergunte como, mas Pólux era filho de Zeus, que teve uma transa com Leda, noiva de Tíndaro, rei de Esparta. Ela, Leda, no dia do casamento com Tíndaro, ficou encantada com Zeus, que se transformou em cisne para seduzi-la, e engravidou de Pólux e Clitemnestra. Mas, como era dia de núpcias e esse pessoal da mitologia parece que era meio ¿caliente¿, Leda teve a lua-de-mel também com Tíndaro, e engravidou de Castor e Helena. Bom, eu não entendo nada de genética nem de biologia, mas diz a história que foi assim. Então, Leda teve quatro filhos, dois casais de gêmeos. Recapitulando: Castor e Helena, filhos de Tíndaro, e Pólux e Clitemnestra, filhos do todo poderoso Zeus. Só que os filhos de Tíndaro eram mortais, e os de Zeus, claro, eram imortaizinhos da silva. Bom, a história tem um monte de toques rocambolescos, mas vamos nos fixar nos irmãos Castor e Pólux, ok? Eles sempre foram muito queridos por todos em Esparta, cresceram muito unidos, mesmo sendo filhos de pais diferentes (acho até que devia ser um orgulho ser corneado por Zeus). O próprio Zeus adorava os dois. Sempre foram corajosos, e viraram bravos guerreiros, defendendo seu povo. Um dia eles foram a casa do tio Léucipo, irmão de Tíndaro, e se apaixonaram desesperadoramente por Febe e Ilaira, suas primas. Eles tiveram um surto, sei lá, e raptaram as beldades. Os noivos delas, que não ficaram muito alegres com o negócio, correram atrás do prejuízo, declararam guerra aos manos e aí começou, então, uma batalha de muitos e longos dias. Para Pólux não tinha muito grilo. Afinal ele era imortal, mesmo. Então ele protegia Castor, que podia morrer como qualquer um. Só que, numa dessas batalhas, Pólux se distraiu e Castor foi atingido por uma lança, que lhe perfurou o pulmão. Pólux, desesperado, vira um Rambo espartano e mata todo mundo que vê pela frente. Abraça o irmão, lhe retira a lança do peito e chora, misturando suas lágrimas ao sangue do mano, no momento não apenas mortal, mas moribundo. Pólux, num gesto extremo, grita a Zeus e pede que ele salve a vida de Castor, ou, então, que o mate também. Zeus não se metia nas questões de vida e morte, e disse ser impossível. Então Pólux pediu que lhe fosse retirada a imortalidade e passada para o irmão, para que fosse salvo. Só que quando Zeus, tomado de compaixão pela dor do filho, realizou seu pedido, quem começou a morrer foi Pólux. Aí, quem se desesperou foi Castor, que pediu o mesmo que o irmão: renunciava à imortalidade para salvar o outro. E, assim, segundo a mitologia, até hoje Castor e Pólux vivem dessa forma: doando, um ao outro, seus maiores poderes, seus maiores dons, tudo que lhes é mais importante, para que ambos possam estar sempre juntos. Um sente dor, o outro o ampara. Um sofre, o outro o protege, um morre um pouco, o outro vive. E, a cada momento, essa troca é tão mais freqüente e ininterrupta que Castor e Pólux agora são imortais, vivendo juntos para toda a eternidade. E aí? Isso não seria algo parecido com o amor? O quanto nos doamos a quem a gente ama? Tem sido o suficiente? Ou não precisamos abrir um pouco nosso coração e entrar num estado de troca permanente com quem a gente quer viver junto pela eternidade de nossa breve existência? Não sei se é isso. Mas não custa nada pensar. |